“Da área transferida, segundo o governador, 80% estão ocupadas e serão regularizadas.”
A concordância com o sujeito representado por porcentagem é sempre alvo de dúvida ou hesitação. A recomendação é que se faça o verbo concordar com o termo mais próximo (concordância atrativa).
Há quem questione esse princípio, visto como “ilógico”, já que o núcleo do sujeito é a expressão numérica. Ocorre, entretanto, que a gramática não é inventada por alguém. É antes a descrição dos comportamentos regulares da língua.
Assim, observa-se a tendência dos usuários do idioma a preferir o termo investido de noção semântica qualitativa ao termo abstrato (representado pelo número) no momento de atribuir uma ação ao sujeito. Entende-se, assim, a concordância atrativa prevalecer sobre a concordância lógica quando o período está na ordem direta.
Havendo a inversão sintática, porém, a situação é um pouco diferente, pois não há como fazer concordância atrativa com um termo que ficou distante do verbo. Na frase em destaque, as formas verbais (estão ocupadas e serão regularizadas) não concordam nem com o substantivo “área” (feminino, mas singular) nem com o numeral 80 (plural, mas masculino). Não há, portanto, como justificar a construção escolhida pelo redator.
Nesse caso, as formas verbais deveriam concordar com o numeral, que, afinal, é o elemento mais próximo delas. Veja abaixo a correção:
Da área transferida, segundo o governador, 80% estão ocupados e serão regularizados.
Recuo de adjunto adverbial garante clareza do texto
Por Thaís Nicoleti
“Jovem assassina 15 pessoas e depois se mata na Alemanha”
O título jornalístico destacado acima aparentemente não apresenta problemas, mas, lido com certa atenção, suscita uma questão sintática importante.
O fato, largamente divulgado na imprensa, ocorreu na Alemanha. Foi nesse país que o jovem assassinou 15 pessoas e, em seguida, cometeu o suicídio.
Do ponto de vista gramatical, observamos que o período tem dois verbos (é um período composto), portanto duas orações. O adjunto adverbial de lugar (”na Alemanha”) diz respeito a ambas as ações, não a uma só. Posto, entretanto, no final do período, sugere pertencer apenas à segunda oração, como se o jovem tivesse assassinado 15 pessoas em algum lugar não mencionado e, depois disso, tivesse ido para a Alemanha, onde teria cometido o suicídio.
Essa interpretação indesejada seria eliminada caso o adverbial de lugar fosse colocado no início do período: “Na Alemanha, jovem assassina 15 pessoas e depois se mata”. O recuo do adjunto adverbial, num caso como esse, vai além da questão estilística, da manobra de ênfase que geralmente o justifica. Aqui converge para a clareza do texto.
Sugere-se, portanto, a seguinte construção:
Na Alemanha, jovem assassina 15 pessoas e depois se mata
Paulo Ramos
Paulo Ramos é jornalista, professor e consultor de língua portuguesa do Grupo Folha-UOL
E-mail: peramos@uol.com.br